No Brasil, as mulheres representam 53% dos jogadores, conforme dados da Pesquisa Game Brasil. Apesar de serem a maioria, elas ainda enfrentam desafios significativos no ambiente dos jogos eletrônicos, como episódios frequentes de misoginia, que incluem ofensas, humilhações e ameaças. Esses comportamentos afetam diretamente a maneira como elas se envolvem com os jogos online.
Os relatos indicam que as agressões costumam se intensificar quando a identidade feminina é revelada, especialmente através do uso de microfones. O que poderia ser uma simples interação transforma-se em ataques verbais.
“O ambiente é predominantemente masculino. Quando as mulheres decidem jogar, muitas vezes não se sentem seguras. Você vai para relaxar, pensando: ‘Vou desestressar jogando’. Mas acaba ouvindo xingamentos e sofrendo assédio; o assédio é muito comum”, diz a universitária Marcela Xavier Campos.
Mudanças na rotina das jogadoras para evitar violência
Diante da alta incidência de ofensas, várias jogadoras têm adotado medidas para minimizar sua exposição. Essas estratégias incluem não usar o microfone, evitar interações com outros jogadores e até abandonar certas partidas.
“Eu sei que se eu falar algo, a situação só vai piorar. Eles simplesmente não me ouvirão”, comenta Marcela.
Em algumas situações, as ofensas vão além do verbal e culminam em ameaças sérias, muitas vezes envolvendo jovens usuários. Em uma partida, Marcela ouviu uma criança de seis anos afirmar que ‘o pai dela deveria tê-la estuprado para aprender a jogar’.
A universitária Victoria Shofya Alves Braga também vivenciou experiências similares. “No começo, optei por ignorar e continuar jogando. Mas logo ele começou a insinuar que eu vendia conteúdo adulto apenas por ser mulher”, relata.
Efeitos que vão além do mundo digital
Especialistas alertam que a exposição constante à misoginia pode ter consequências psicológicas graves, principalmente entre crianças e adolescentes. A psicóloga Gabrieli Mercie explica que esse tipo de violência prejudica o desenvolvimento emocional durante essas fases críticas.
No período da infância e adolescência ocorre um importante processo de formação da identidade e autoestima. Se uma criança ouve que merece ser estuprada ou que joga mal por ser mulher, isso pode desmotivá-la e fazê-la acreditar que esse ambiente não é para ela. E sabemos que é um espaço para todos; jogar é um direito universal.
Gabrieli Mercie, psicóloga
Nesse contexto, o papel da família torna-se essencial tanto na proteção quanto na orientação de jovens jogadores online. A presença dos pais pode ajudar a identificar riscos e promover comportamentos respeitosos nas interações digitais.
“A família tem um papel fundamental no desenvolvimento dessas crianças; acompanhar seus interesses é importante: ‘Deixe-me jogar com você ou assistir você jogando’”, afirma a psicóloga.
O papel da família no ambiente digital
A empresária Lívia Xavier, mãe de jovens gamers, destaca sua preocupação em monitorar as atividades online dos filhos e orientar sobre respeito nas interações digitais.
Ela ressalta que manter o diálogo aberto em casa é crucial para moldar comportamentos positivos no ambiente virtual.
“Converso sempre com meu filho: ‘As mulheres merecem respeito. Elas podem não ter a mesma força física que os homens, mas têm capacidade igual. Você deve ser um exemplo’”, enfatiza.
Possibilidade de responsabilização criminal para ataques
No âmbito jurídico, atos de misoginia podem ser considerados crimes dependendo do contexto em que ocorrem. A promotora de Justiça Renata Colnago esclarece que agressões motivadas pelo gênero não se restringem ao ambiente virtual.
“Misoginia refere-se ao tratamento humilhante direcionado a mulheres ou meninas devido à sua condição de gênero feminino”, explica.
A ideia de anonimato na internet não impede a responsabilização dos agressores. De acordo com a promotora, as plataformas digitais mantêm registros que possibilitam identificar usuários envolvidos em casos de misoginia e violência virtual.
No fundo, o anonimato não existe realmente. As plataformas já realizam monitoramento e muitos usuários são bloqueados por comportamentos inadequados.
Renata Colnago, promotora de Justiça
A promotora ressalta ainda que o sistema judiciário está disponível para investigar e punir infratores quando necessário. “Temos um sistema judiciário preparado para tomar as medidas necessárias visando garantir a segurança da população”, afirma.
Ao final, ela orienta vítimas a denunciarem os casos e reunirem provas como prints e gravações das agressões antes de registrar uma ocorrência policial. “Documentar tudo e enviar esses elementos ao Ministério Público ou à Polícia é essencial para facilitar as investigações.”
Casos desse tipo podem ser classificados como injúria, ameaça, perseguição e cyberbullying.
*Texto sob supervisão da editora Erika Santos.


