Informações obtidas de documentos do sistema de imigração argentino revelam que a saída do político brasileiro .
A jornada teve início em Puerto Iguazú, cidade argentina adjacente a Foz do Iguaçu (PR), cujo aeroporto é capacitado para receber jatos executivos de grande porte, com uma pista de 3.300 metros.
Flávio deixou o Brasil após a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) que exigia a entrega de seus passaportes à Polícia Federal.
Roteiro dos voos e travessia
Os dados disponíveis indicam que a viagem foi dividida em duas partes. Em uma das versões, Flávio Bolsonaro decolou de Brasília às 5h05 na terça-feira, 27 de outubro, em um jato Cessna Citation Excel pertencente ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador.
A aeronave aterrissou em San Fernando, Buenos Aires, às 8h40, de onde Flávio teria seguido em outro voo privado para Puerto Iguazú.
A esposa de Flávio, Fernanda, e as duas filhas partiram de Brasília em um segundo avião com destino a Cascavel, no Paraná.
Às 20h02 daquela mesma noite, as três embarcaram em uma van identificada como da empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda., de Foz do Iguaçu.
Após verificar o endereço cadastrado da empresa na Receita Federal, a reportagem encontrou apenas um estacionamento. Trabalhadores locais informaram que a agência nunca funcionou no local. A responsável pelo estacionamento declarou ser irmã de uma das representantes da Dallas.
Quando questionada sobre a localização da irmã, ela respondeu: “O meu comércio é aqui.”
A Dallas Turismo emitiu uma nota em suas redes sociais negando ter transportado o candidato.
Registros de imigração e escolta
Documentos obtidos indicam que duas vans cruzaram a fronteira para a Argentina naquela noite.
Na van que veio de Cascavel estavam os dados da esposa e das filhas do senador. Em relação a Flávio, o sistema registrou três entradas na mesma van: às 22h37 (com passaporte italiano), às 22h40 (com carteira de motorista) e às 23h11 (com passaporte brasileiro).
Os registros com documentos brasileiros foram cancelados posteriormente, permanecendo válido apenas o ingresso com passaporte italiano.
A outra van havia cruzado o controle cerca de sete minutos antes, transportando o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre — que defendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro — e o israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-oficial do serviço de inteligência israelense.
Menachem, que participou de eventos ao lado de figuras como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, havia entrado no Brasil em 19 de outubro, contando com outras três passagens pelo país naquele ano.
Procurado em sua residência, Neri Luiz Dala Corte afirmou ter sido contratado para buscar dois homens em um posto de gasolina em Foz do Iguaçu e levá-los ao aeroporto de Puerto Iguazú, negando ter visto membros da família Bolsonaro.
“Levei duas pessoas que nem sei quem eram. Apenas deixei-os no aeroporto. Eles desceram, fiz a volta e, ao sair, havia repórteres na minha frente.”
O jornalista argentino Nicolás Munafó, da emissora “C5N”, confirmou ter abordado o motorista e presenciou a comitiva, relatando a presença de escolta policial e veículos oficiais.
“Na frente da comitiva, havia uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária, responsável pelos aeroportos da Argentina. Depois, vimos sair caminhonetes brasileiras com placas do Brasil e motoristas brasileiros, seguidas por mais caminhonetes argentinas, uma delas com placa diplomática.”
Embora tenha sido registrado como entrada terrestre, a principal linha de investigação sugere que Flávio chegou a Puerto Iguazú de avião, vindo de Buenos Aires, e permaneceu por várias horas na pista aguardando a chegada da família.
Controvérsias na Argentina e a contratação do voo executivo
A operação gerou questionamentos na Argentina, levando a Justiça a solicitar a preservação das imagens das câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto de Puerto Iguazú.
Em entrevista, a deputada argentina Marcela Pagano expressou suas preocupações:
“Existem irregularidades na passagem pelo controle de imigração argentino, a escolta policial e o transporte em veículos diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. Esses são os pontos que apresento para que a Justiça busque explicações sobre como essa operação foi autorizada.”
O Secretário de Comunicação da Presidência argentina, Fabian Fernandez, afirmou que o governo não tem nada a declarar.
A viagem para os Estados Unidos foi feita em um jato Gulfstream G400, operado pela Baires Fly, uma empresa argentina.
O proprietário da companhia, Luis Grande, informou que o voo custou 150 mil dólares (aproximadamente R$ 800 mil), pagos por um intermediário do setor de aviação baseado nos EUA, através de uma transferência de uma conta empresarial americana para um banco argentino. Grande afirmou não saber quem era o contratante final.
Veículos de comunicação dos EUA relataram que Jason Miller, assessor de Donald Trump, teria organizado a viagem. O jornal argentino “Clarín” noticiou que agentes americanos teriam assumido o controle de parte do aeroporto em Puerto Iguazú.
A chegada aos EUA
O jato que transportou Flávio e sua família fez uma parada para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami, onde desembarcaram na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, no Aeroporto Executivo de Opa-Locka.
Sobre a chegada de Flávio nos EUA, o presidente Donald Trump afirmou que “não tomou partido” nas eleições brasileiras, enquanto o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou qualquer ajuda na saída do senador do Brasil.
“Não facilitamos nada. Não tivemos participação nos preparativos que ele fez. O governo dos Estados Unidos não teve papel direto em nenhuma das movimentações realizadas.”
Rubio esclareceu que o parlamentar já possuía visto anteriormente e que a presidência americana autorizou sua entrada no país.
Posicionamentos oficiais
Após sua chegada aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta questionando o resultado das eleições presidenciais, sem apresentar evidências de fraude. Na primeira versão, ele se dizia o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”; posteriormente, alterou para “líder do Brasil”.
O advogado Frederick Wassef, representante de Flávio, comunicou que nenhuma informação sobre a viagem é oficial ou confirmada e negou que tenha sido uma fuga.
A Baires Fly não se manifestou. A assessoria do advogado Willer Tomaz afirmou em nota:
“É falsa a informação de que a aeronave pertencente a ele ou a empresas vinculadas à sua família tenha sido utilizada por Flávio Bolsonaro ou seus familiares para deixar o Brasil.”
Flávio Bolsonaro continuará exercendo seu mandato de senador até o fim de janeiro do próximo ano, momento em que perderá seu cargo eletivo e o foro privilegiado pela primeira vez em 24 anos. Ele é alvo de investigações no STF em dois inquéritos: um sobre suposta lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz, ligado a empresas de apostas (bets), e outro sobre repasses para o filme Dark Horse, feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Willer também negou a prática de lavagem de dinheiro em nota.





