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Eleições nos EUA: midterms podem impactar agenda de Trump e afetar economia brasileira

Sudeste Notícias
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A disputa pelo controle do Congresso dos Estados Unidos pode ter um papel crucial nas decisões do governo em relação a gastos públicos, impostos e regulamentações, além de influenciar as expectativas do mercado, tendo repercussões nos juros e no dólar globalmente.

As chamadas “midterms” são as eleições que renovam a totalidade das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Enquanto os deputados têm mandatos de dois anos, os senadores permanecem em seus cargos por seis anos.

  • 👉O resultado pode modificar o equilíbrio de forças no Congresso sem alterar a Presidência, visto que todos os representantes da Câmara são escolhidos novamente a cada eleição, ao passo que cerca de um terço das cadeiras do Senado é renovado.

As projeções atuais indicam que os democratas possuem uma vantagem, especialmente na Câmara, enquanto a disputa pelo Senado apresenta um cenário mais equilibrado.

De acordo com as análises do BTG Pactual, os republicanos enfrentam dificuldades, especialmente nas eleições para a Câmara dos Representantes.

Os principais cenários projetados são:

  • 🏛️ Câmara dos Representantes: O modelo estatístico do “The Economist”, utilizado pelo BTG como referência, estima que os democratas conquistarão 239 das 435 cadeiras, enquanto os republicanos obterão 196. Nesse cenário, a probabilidade de uma maioria democrata é de 96%. A plataforma Polymarket, que negocia previsões de eventos futuros, atribui uma chance de 92% de vitória do partido na Câmara.
  • 🏛️ Senado: A disputa no Senado é mais acirrada. O cenário-base do modelo do BTG projeta que, após as eleições, os democratas terão 51 cadeiras, enquanto os republicanos ficarão com 49. Para essa estimativa, o banco considera 91 cadeiras praticamente definidas e calcula as nove disputas mais competitivas. A probabilidade de uma maioria democrata varia entre 65% e 72%, de acordo com cotações do Polymarket e do modelo do BTG, respectivamente.

Impactos de uma possível ‘onda azul’ na agenda de Trump

Uma eventual “onda azul” — que se refere ao controle das duas Casas do Congresso pelos democratas — pode restringir as possibilidades de Trump em aprovar suas propostas e aumentar a fiscalização sobre seu governo. Essa é a análise de Andressa Durão, economista do ASA.

“As apostas de mercado para as eleições de meio de mandato dos EUA vêm se deslocando a favor de uma onda democrata. Um fortalecimento do Partido Republicano pode restringir o poder do presidente para implementar certas medidas e aumentar a supervisão sobre o governo.”

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, relaciona a insatisfação dos eleitores com o aumento do custo de vida, especialmente em relação aos combustíveis nos EUA. Ele ressalta que o preço da gasolina ultrapassa US$ 4 (R$ 21,77) por galão e o do diesel chega a US$ 6 (R$ 32,66). Para ele, a conquista de pelo menos uma das Casas pelos democratas já seria suficiente para complicar a agenda legislativa de Trump.

O impacto desse bloqueio, no entanto, varia conforme o resultado em cada Casa:

  • 🔵🔵 Se os democratas ganharem as duas: terão controle sobre a agenda legislativa e as comissões que fiscalizam o Executivo. O Senado também terá maior poder sobre a confirmação de indicados pelo presidente para cargos governamentais e instituições, como o Federal Reserve (Fed) e a Suprema Corte.
  • 🔵🔴 Se a oposição vencer apenas na Câmara: poderá dificultar a aprovação de projetos e a liberação de recursos, mas os republicanos manterão o controle do Senado, o que lhes dará influência nas nomeações. Trump ainda terá o poder de veto sobre projetos aprovados pelo Congresso.

Sung também alerta sobre os riscos para os mercados caso os democratas ganhem ambas as Casas.

“O mercado financeiro ainda não considerou totalmente a possibilidade de os democratas dominarem as duas Casas do Congresso. Se isso ocorrer, o impasse entre o governo e o Legislativo e o avanço de pautas polêmicas, como discussões sobre um possível impeachment, devem aumentar a volatilidade nos mercados globais”, conclui.

Na foto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao lado da primeira-dama Melania, conversando com jornalistas após votar antecipadamente nas midterms na Flórida, em 25 de outubro de 2026. — Foto: REUTERS/Umit Bektas

Como as eleições americanas impactam o Brasil

Para o Brasil, os efeitos das eleições nos EUA podem se manifestar, em especial, através dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e da cotação do dólar.

As decisões do Congresso sobre despesas e impostos afetam as expectativas dos investidores em relação às finanças públicas dos EUA. Se houver a expectativa de que as despesas governamentais cresçam além da arrecadação, por exemplo, os juros dos títulos do Tesouro podem aumentar.

  • 🤔Isso é relevante porque esses títulos são considerados referência para investimentos financeiros globalmente.Se oferecem rendimentos mais altos, investir nos EUA se torna mais atraente, levando investidores a retirar recursos de países emergentes, como o Brasil.
  • 📊Com a diminuição da entrada de capital no país, o dólar tende a valorizar-se em relação ao real.As taxas de juros futuras no Brasil também podem aumentar, encarecendo o financiamento para empresas e consumidores e impactando as expectativas sobre a taxa básica de juros, a Selic.

Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, acredita que uma vitória republicana nas duas Casas proporcionaria a Trump maior margem para implementar cortes de impostos, desregulamentação e políticas comerciais mais rígidas.

Se essas ações aumentarem o déficit público, podem pressionar a inflação e os juros de longo prazo nos EUA.

“Isso pode elevar o dólar em relação ao real, aumentar os juros futuros brasileiros e dificultar o desempenho da bolsa — especialmente para empresas endividadas e setores sensíveis ao crédito, como varejo e construção.”

Por outro lado, uma vitória democrata poderia limitar novas iniciativas de expansão fiscal e aliviar a pressão sobre as taxas de juros americanas.

Na visão de Praça, a oposição também teria maior capacidade de “fiscalizar o governo” e influenciar a confirmação de indicados para cargos importantes.

Com menos espaço para aprovar medidas de estímulo econômico, a pressão sobre as taxas de juros nos EUA poderia diminuir, tornando os mercados emergentes mais atrativos para investidores, o que poderia resultar em um fortalecimento do real e na queda das taxas de juros futuras.

Entretanto, esse efeito dependeria também do clima político nos EUA, já que disputas orçamentárias e conflitos entre governo e Congresso poderiam gerar incertezas para os investidores e provocar novas oscilações nos mercados.

“Na bolsa, os efeitos seriam desiguais: empresas exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais forte, mas sofrer se houver queda nas commodities ou na demanda global”, afirma Praça.

Na imagem, um encontro entre Lula e Trump na Casa Branca. — Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

A relação entre Lula e Trump também gera apreensão entre investidores

A interação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa outro elemento de incerteza para os investidores, podendo afetar a confiança no Brasil.

Aumento das preocupações com possíveis atritos políticos e econômicos entre os países, como as tensões relacionadas ao tarifaço e à Lei Magnitsky, são esperados. Praça acredita que o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA também pode impactar a continuidade de tais medidas.

“Com a reeleição de Lula, é possível que haja mais conflitos desse tipo, caso os republicanos vençam, ou uma resolução mais rápida se os democratas prevalecerem. Atualmente, o Supremo dos EUA tem derrubado essas ações, embora de forma mais lenta”, avalia Praça.

Entretanto, uma mudança no cenário do Congresso americano não implica necessariamente no fim das tarifas implementadas por Trump. O presidente pode utilizar diferentes dispositivos legais para estabelecer taxas sobre produtos importados.

  • 👉Entre essas, estão a Seção 232, que permite a imposição de tarifas por questões de segurança nacional, e a Seção 301, utilizada em casos de práticas comerciais consideradas desleais.O governo americano já aplicou essas medidas em produtos brasileiros, como tarifas sobre o aço e ações de investigação comercial contra o Brasil.

Entretanto, a possibilidade de aplicação de tarifas também está sujeita a limites legais. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos EUA anulou tarifas impostas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).

No entanto, essa decisão não se aplica às medidas fundamentadas nas Seções 232 e 301, que possuem bases legais distintas.

Por fim, o impacto das eleições americanas sobre o Brasil pode se somar a fatores internos que influenciam a formação do preço do dólar. Após as oscilações observadas nas eleições brasileiras, a cotação do dólar se estabilizou em torno de R$ 5,40.

Segundo Sung, esse movimento ocorre em um contexto de valorização global do dólar, impulsionado pelas expectativas de aumento de juros nos EUA.

A valorização do dólar tem feito com que várias moedas de países emergentes percam valor em relação à moeda americana. Contudo, o real seguiu uma trajetória distinta.

“O Brasil estava em desacordo após o primeiro turno das nossas eleições. Com a vitória do presidente Lula e as expectativas do mercado frustradas, o dólar voltou a subir”, conclui.

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