Durante o mês dedicado à conscientização sobre a doença autoimune que afeta o sistema nervoso central, um neurologista compartilha insights sobre como os sintomas iniciais podem ser sutis e a relevância do diagnóstico precoce.

Sintomas que podem parecer simples precisam ser observados com atenção, pois podem sinalizar problemas neurológicos significativos. A esclerose múltipla, uma condição crônica e autoimune, provoca lesões no cérebro e na medula espinhal. Identificar esses sinais precocemente é crucial para o tratamento, contribuindo para a manutenção da autonomia e das capacidades funcionais dos pacientes. No Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem) estima que existem mais de 40 mil indivíduos diagnosticados com a doença.

Segundo o neurologista Sidney Godoi, que atua na Hapvida, os sintomas iniciais podem ser bastante diversos entre as pessoas. No entanto, alguns dos sinais mais frequentes incluem perda temporária da visão em um olho ou visão embaçada, formigamentos constantes, sensação de choque ao mover o pescoço, fraqueza em um membro (braço ou perna), dificuldades para caminhar, desequilíbrio ou visão dupla.

“O desafio é que muitos desses sintomas podem ocorrer em situações cotidianas comuns, como estresse ou ansiedade, além de compressões de nervos – por exemplo, ao cruzar as pernas. A diferença crucial é que os sinais da esclerose múltipla geralmente persistem por mais de 24 horas e surgem sem explicação clara. Muitas vezes, eles resultam em algum nível de limitação. Portanto, se um sintoma neurológico se mantiver ou se repetir, é fundamental buscar investigação”, recomenda Godoi.

A melhoria temporária de sintomas como formigamento ou fadiga pode levar alguns a acreditar erroneamente que não há necessidade de procurar atendimento médico. No entanto, Godoi enfatiza que manifestações persistentes ou recorrentes devem ser examinadas com atenção.

“Pacientes frequentemente pensam que, se um sintoma melhorou espontaneamente, não há razão para consultar um médico. Na esclerose múltipla, isso pode ser um equívoco; os surtos costumam apresentar uma melhora parcial por conta própria, mas a doença continua ativa e pode ocasionar novas lesões. Por isso, a avaliação precoce é extremamente importante”, destaca o neurologista.

O especialista ressalta que houve um aumento no número de diagnósticos nas últimas décadas, mas isso não implica que a condição esteja se tornando mais prevalente. “Atualmente temos acesso a exames de ressonância magnética muito mais avançados e sensíveis, além de uma compreensão ampliada da doença e critérios diagnósticos mais rigorosos. Isso resulta na identificação precoce de casos que antes poderiam passar despercebidos”, conclui.

A importância do diagnóstico precoce

Embora não exista cura para a esclerose múltipla, diagnosticar e tratar a condição precocemente é essencial para controlar seus efeitos e melhorar a qualidade de vida dos afetados. “A esclerose provoca inflamações que podem danificar o cérebro e a medula espinhal. Cada surto tem potencial para deixar sequelas permanentes. Iniciar o tratamento rapidamente aumenta as chances de reduzir novas crises e retardar déficits funcionais. Pacientes diagnosticados cedo conseguem muitas vezes seguir com suas vidas – estudar, trabalhar e formar famílias – mantendo uma boa qualidade de vida por longos períodos”, explica Godoi.

Godoi também aponta alguns mitos que dificultam o reconhecimento da doença: “Um deles é acreditar que apenas pessoas idosas são afetadas pela esclerose múltipla. Na verdade, ela surge frequentemente entre os 20 e 40 anos – um período ativo da vida adulta. Outro mito comum é pensar que todos os pacientes acabarão utilizando cadeira de rodas; essa crença não reflete a realidade atual. Com as terapias modernas disponíveis hoje em dia, muitas pessoas conseguem preservar sua independência e qualidade de vida durante décadas”, finaliza o especialista.

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