Edson Braga alerta para riscos entre produção agrícola e chegada dos alimentos à mesa

Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos avalia que energia, água, processamento, cadeia fria e logística serão decisivos para o abastecimento

O debate sobre o futuro da alimentação costuma se concentrar em quanto o mundo será capaz de produzir nas próximas décadas. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, porém, aumentar a produção agrícola é apenas parte do desafio.

Entre o campo e o consumidor existe uma estrutura formada por fábricas, armazenamento, energia, água, refrigeração, embalagens, transporte, tecnologia e profissionais qualificados. Quando algum desses elementos falha, a produção disponível pode não se transformar em alimento efetivamente acessível.

Na sua avaliação, a próxima grande vulnerabilidade pode surgir não necessariamente pela falta de matéria-prima, mas por problemas na capacidade de preservar, transformar e distribuir aquilo que já foi produzido.

Produção agrícola não garante disponibilidade

Grandes volumes podem conviver com perdas elevadas quando faltam armazenamento, processamento, infraestrutura logística ou controle de temperatura.

Um país pode produzir trigo, leite, frutas ou proteínas em grande quantidade e ainda enfrentar dificuldades para conservar ou transformar esses produtos.

Nesse contexto, agricultura e indústria precisam ser analisadas como partes da mesma cadeia.

Indústria também é infraestrutura

Processamento não serve apenas para criar produtos comerciais.

Refrigeração, congelamento, fermentação, pasteurização, secagem e embalagem permitem que alimentos atravessem distâncias e permaneçam disponíveis por mais tempo.

Uma fábrica transforma matérias-primas com janelas limitadas de utilização em produtos mais estáveis, seguros e distribuíveis.

Por isso, capacidade industrial também influencia a capacidade de uma região transformar produção agrícola em oferta efetiva.

Regiões enfrentam desafios distintos

Em partes da África, ampliar processamento, armazenamento, energia e cadeia fria pode ser tão importante quanto elevar produtividade no campo.

A Europa possui infraestrutura e conhecimento consolidados, mas enfrenta pressões relacionadas a energia, custos industriais, demografia e dependência de determinadas matérias-primas.

Nos Estados Unidos, escala e centralização aumentam eficiência, mas também podem ampliar o impacto de rupturas logísticas ou eventos climáticos.

Já a Ásia precisa administrar grandes populações, megacidades e diferentes níveis de dependência externa.

Para a América Latina, a oportunidade está em agregar mais transformação, tecnologia e conhecimento à grande capacidade agrícola já existente.

Água e energia entram na estratégia industrial

A disponibilidade de água tende a ganhar peso crescente na localização e expansão de fábricas.

Além da agricultura, ela participa de limpeza, resfriamento, vapor, processamento e higienização.

Isso aumenta a importância de reuso, recuperação, medição e processos mais eficientes.

A energia também é parte invisível de praticamente toda cadeia de alimentos.

Cocção, refrigeração, congelamento, secagem, armazenamento e transporte dependem de fornecimento estável. Em categorias refrigeradas ou congeladas, interrupções podem comprometer rapidamente qualidade e disponibilidade.

Cadeia fria pode reduzir perdas

Refrigeração e congelamento estão entre as estruturas mais importantes para ampliar o aproveitamento de carnes, laticínios, pescados, frutas, vegetais e refeições preparadas.

Expandir essas redes em regiões com altas perdas pode produzir efeitos relevantes sem necessidade de aumentar proporcionalmente a produção agrícola.

Nesse cenário, algumas das principais inovações do setor podem estar menos na criação de novos alimentos e mais na capacidade de impedir que os existentes sejam desperdiçados.

Desperdício representa capacidade perdida

Quando um alimento é descartado, não se perde apenas o produto.

Também foram utilizados terra, água, energia, trabalho, fertilizantes, transporte, embalagem e capital.

Reduzir perdas pode, portanto, funcionar como uma forma de ampliar a oferta útil.

A mesma lógica vale para embalagens. Reduzir materiais é importante, mas soluções que comprometem proteção ou aumentam descarte podem gerar um resultado pior para o sistema.

Eficiência precisa conviver com resiliência

Durante décadas, empresas reduziram estoques, centralizaram produção e enxugaram fornecedores para aumentar eficiência.

Essas estratégias reduziram custos, mas também podem aumentar exposição a choques.

Pandemias, eventos climáticos, crises energéticas, conflitos e interrupções logísticas mostraram que sistemas excessivamente dependentes de poucas rotas ou fornecedores podem se tornar frágeis.

Para Edson Braga, a próxima etapa da gestão industrial deverá combinar eficiência com capacidade de resposta.

Isso pode significar fornecedores alternativos, flexibilidade produtiva, diferentes origens de matérias-primas e capacidade regional quando fizer sentido.

Tecnologia pode conectar uma produção mais distribuída

A digitalização permite coordenar unidades industriais em diferentes regiões sem perder padronização e controle.

Dados de qualidade, manutenção, demanda, rastreabilidade e produção podem ser compartilhados entre fábricas.

Esse modelo cria a possibilidade de manter conhecimento conectado globalmente enquanto parte da capacidade produtiva permanece mais próxima dos mercados.

Uma unidade regional pode não possuir isoladamente o menor custo por tonelada, mas pode reduzir distância, lead time e exposição a interrupções.

Geopolítica ganha peso na cadeia de alimentos

Crises internacionais podem alterar exportações, tarifas, estoques e disponibilidade de matérias-primas em pouco tempo.

Por isso, empresas e países precisarão incorporar cenários geopolíticos às decisões sobre abastecimento.

O objetivo não é prever exatamente o que acontecerá, mas reduzir dependência excessiva de uma única condição.

Resiliência, nesse sentido, funciona como proteção.

Produzir mais não será suficiente

Para Edson Braga, o futuro da alimentação dependerá também da capacidade de aproveitar melhor aquilo que já é produzido.

Isso envolve reduzir perdas, ampliar armazenamento, fortalecer cadeia fria, utilizar água e energia de forma eficiente, desenvolver fornecedores e criar capacidade industrial próxima das regiões produtoras e consumidoras.

A agricultura continuará sendo essencial, mas não funciona isoladamente.

O alimento precisa ser transformado, conservado, armazenado e transportado antes de chegar à mesa.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas quanto o mundo consegue produzir.

Também precisa incluir quanto dessa produção consegue efetivamente se transformar em alimento disponível.

A diferença entre essas duas respostas pode definir parte importante do abastecimento nas próximas décadas.

By Sudeste Notícias